O estrabismo e a ambliopia são disfunções visuais que afetam mais de 2 milhões de brasileiros por ano, sendo a maioria crianças, segundo dados do Hospital Israelita Albert Einstein. Essas condições, quando não tratadas precocemente, podem comprometer permanentemente o desenvolvimento visual da criança e impactar sua qualidade de vida.
A detecção e o tratamento precoces são fundamentais. Quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as chances de recuperação completa da visão. Após os 7 anos de idade, as possibilidades de reversão da ambliopia diminuem drasticamente, tornando o diagnóstico precoce uma verdadeira corrida contra o tempo.
Neste guia completo, a Dra. Nilza Minguini, especialista em Oftalmologia Pediátrica da Verlux, explica tudo o que pais e responsáveis precisam saber sobre essas condições: o que são, como identificar os sinais, quais os tratamentos disponíveis e por que a idade é um fator crítico para o sucesso terapêutico.
Índice
- O que é Estrabismo?
- O que é Ambliopia?
- A Relação Entre Estrabismo e Ambliopia
- Diagnóstico e Avaliação
- Protocolo de Tratamento
- Perguntas Frequentes
O que é Estrabismo?
O estrabismo é caracterizado pela falta de paralelismo entre os olhos, manifestando-se como desvio ocular (popularmente conhecido como “vesguice” ou “olho torto”). Em vez de ambos os olhos apontarem para a mesma direção, um deles desvia para dentro, para fora, para cima ou para baixo.
Tipos de Estrabismo
Os desvios podem ser classificados de acordo com sua direção:
- Estrabismo Convergente (Esotropia): O olho desvia para dentro, em direção ao nariz. É o tipo mais comum em crianças pequenas, podendo aparecer nos primeiros anos de vida.
- Estrabismo Divergente (Exotropia): O olho desvia para fora, afastando-se do nariz. Pode ser intermitente no início, manifestando-se principalmente quando a criança está cansada ou olhando para longe.
- Estrabismo Vertical: O olho desvia para cima ou para baixo. Menos comum que os desvios horizontais, mas igualmente importante em termos de impacto visual.
- Estrabismo Misto: Combinação de desvios em mais de uma direção, apresentando componentes tanto horizontais quanto verticais.
Causas do Estrabismo
As causas do estrabismo podem ser divididas em dois grupos principais:
Estrabismo Congênito:
- Presente desde o nascimento ou que aparece nos primeiros seis meses de vida
- Acredita-se que possa ter influência genética e hereditária
- Relacionado ao desenvolvimento inadequado dos centros de controle ocular no cérebro
- Histórico familiar de estrabismo aumenta o risco
Estrabismo Adquirido:
- Aparece após os seis primeiros meses de vida
- Pode ser decorrente de erros refrativos não corrigidos (falta de óculos)
- Causado por paralisias dos músculos oculares
- Resultado de traumas oculares ou cranianos
- Associado a algumas doenças neurológicas ou sistêmicas
- Em alguns casos, relacionado a tumores ou outras condições graves
ATENÇÃO: Se seu filho apresentar desvio ocular súbito, especialmente acompanhado de dor de cabeça, visão dupla ou outros sintomas neurológicos, procure atendimento médico imediato. Embora raro, o estrabismo súbito pode indicar condições que requerem avaliação urgente.
Consequências do Estrabismo Não Tratado
Quando uma criança tem estrabismo, ela deixa de enxergar com os dois olhos juntos simultaneamente, perdendo a visão binocular e a percepção de profundidade tridimensional (3D).
Para evitar visão dupla (diplopia), o cérebro da criança desenvolve um mecanismo de adaptação: passa a usar apenas um olho de cada vez, num sistema de “liga-e-desliga” chamado de supressão. Essencialmente, o cérebro aprende a ignorar as imagens vindas do olho desviado.
O problema é que o olho que deixou de ser usado regularmente pode ter seu desenvolvimento visual bloqueado, tornando-se amblíope (olho preguiçoso). Esta é a conexão crítica entre estrabismo e ambliopia.
O que é Ambliopia?
A ambliopia, popularmente conhecida como “olho preguiçoso”, ocorre quando um olho não desenvolve visão normal durante a infância. O olho amblíope é aquele cujo desenvolvimento da visão foi bloqueado por estar em supressão constante.
É importante entender que a ambliopia não é um problema estrutural do olho em si. O olho pode estar perfeitamente saudável anatomicamente, mas o cérebro não aprendeu a processar adequadamente as imagens vindas dele. É, essencialmente, um problema de desenvolvimento neural.
Principais Causas da Ambliopia
- Estrabismo: O desvio ocular leva o cérebro a suprimir a imagem do olho desviado para evitar visão dupla, resultando em desenvolvimento visual inadequado daquele olho.
- Erros Refrativos Não Corrigidos: Diferença significativa de grau entre os dois olhos (anisometropia) ou grau muito alto em ambos os olhos não corrigido com óculos. O cérebro favorece o olho com melhor foco, suprimindo o outro.
- Obstrução Visual: Condições que bloqueiam a entrada de luz em um olho durante a infância, como catarata congênita, ptose palpebral severa (queda da pálpebra) ou opacidades corneanas.
O Fator Crítico da Idade
A ambliopia é reversível, mas existe uma janela de tempo limitada para o tratamento efetivo. O cérebro humano passa por um período crítico de desenvolvimento visual que vai do nascimento até aproximadamente 7-9 anos de idade.
PERÍODO CRÍTICO PARA TRATAMENTO:
- Até 5 anos: Melhor período para tratamento, com respostas rápidas e excelentes resultados
- 5 a 7 anos: Tratamento ainda efetivo, mas a resposta começa a se tornar mais demorada
- Após 7 anos: Se a criança atingir esta idade sem tratamento prévio, as chances de recuperação visual são drasticamente reduzidas ou praticamente nulas
Esta janela temporal faz do diagnóstico precoce uma urgência médica. Cada mês de atraso no tratamento pode representar visão perdida permanentemente.
A Relação Entre Estrabismo e Ambliopia
Estrabismo e ambliopia frequentemente andam juntos, formando um ciclo vicioso:
- Estrabismo causa supressão: O desvio ocular leva o cérebro a ignorar as imagens do olho desviado para evitar visão dupla
- Supressão causa ambliopia: O olho suprimido não desenvolve visão normal por falta de estímulo adequado
- Ambliopia perpetua o estrabismo: Sem visão adequada em ambos os olhos, o sistema de alinhamento ocular não funciona corretamente
Por isso, o tratamento deve abordar ambas as condições de forma integrada e sequencial, seguindo um protocolo específico.
Diagnóstico e Avaliação
O diagnóstico de estrabismo e ambliopia requer avaliação oftalmológica especializada em pediatria. O exame inclui:
Avaliação Completa
- Testes de acuidade visual: Avaliam quanto cada olho enxerga, usando tabelas apropriadas para a idade
- Exame de motilidade ocular: Verifica o alinhamento dos olhos e a função dos músculos oculares em todas as direções do olhar
- Refração sob cicloplegia: Mede o grau dos olhos com dilatação da pupila para resultados precisos
- Exame de fundo de olho: Descarta outras doenças oculares que possam estar causando ou contribuindo para o problema
- Testes de visão binocular: Avaliam se os dois olhos trabalham juntos e a qualidade da percepção de profundidade
Quando Fazer a Primeira Consulta
A Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica recomenda:
- Ao nascimento: Teste do reflexo vermelho (teste do olhinho) na maternidade
- 6 meses de idade: Primeira avaliação oftalmológica completa
- 3 anos de idade: Avaliação pré-escolar com medição de acuidade visual
- Antes da alfabetização: Exame completo antes do início do ensino fundamental
- Anualmente: Consultas de rotina durante toda a infância e adolescência
Sinais de Alerta - Procure um oftalmologista se seu filho:
- Apresentar desvio ocular em qualquer idade, mesmo que intermitente
- Fechar um dos olhos ao ar livre ou sob luz forte
- Inclinar ou virar a cabeça para olhar para objetos
- Aproximar muito o rosto de livros, tablets ou televisão
- Tropeçar ou esbarrar em objetos com frequência
- Apresentar reflexo branco na pupila em fotografias (diferente do reflexo vermelho normal)
- Reclamar de visão embaçada, dores de cabeça frequentes ou fadiga visual
Protocolo de Tratamento
O tratamento de estrabismo e ambliopia segue uma sequência lógica e bem estabelecida, que deve ser respeitada para obter os melhores resultados.
Etapa 1: Correção Óptica
Prescrição de Óculos
Quando há erro refrativo (miopia, hipermetropia, astigmatismo), os óculos devem ser prescritos e usados continuamente. Em muitos casos, especialmente em estrabismos convergentes acomodativos, os óculos sozinhos podem corrigir ou melhorar significativamente o desvio.
As crianças devem usar os óculos durante todo o tempo de vigília. A adaptação geralmente ocorre rapidamente, e a maioria das crianças aceita bem os óculos quando percebem que enxergam melhor com eles.
Etapa 2: Tratamento da Ambliopia
Oclusão (Tapa-olho)
O tratamento clássico da ambliopia envolve ocluir (tampar) o olho bom para forçar o cérebro a usar e desenvolver a visão do olho amblíope. A oclusão é prescrita por períodos específicos ao longo do dia, de acordo com a severidade da ambliopia e a idade da criança.
Como funciona a oclusão:
- Geralmente começa com períodos de 2-6 horas diárias
- Pode ser necessário aumentar para oclusão em tempo integral (durante todas as horas acordado)
- O tempo de tratamento varia de algumas semanas a vários meses
- Requer monitoramento oftalmológico frequente (a cada 4-8 semanas)
- A aderência ao tratamento é crucial para o sucesso
Alternativas à oclusão tradicional:
- Penalização com atropina: Colírio que embala temporariamente a visão do olho bom, forçando o uso do olho amblíope
- Filtros ópticos: Lentes especiais que reduzem a visão do olho bom
- Terapia visual computadorizada: Programas específicos que complementam a oclusão
DICA PARA PAIS: A oclusão pode ser desafiadora no início, pois a criança resiste a tampar o olho bom. Transforme o tratamento em brincadeira, use adesivos decorados no tapa-olho e ofereça recompensas pelo uso correto. A persistência dos pais é fundamental para o sucesso.
Etapa 3: Tratamento Cirúrgico do Estrabismo
Após obter equivalência visual entre os dois olhos (ou seja, após tratar a ambliopia), se o estrabismo ainda permanecer, será necessário tratamento cirúrgico do desvio.
Cirurgia de Estrabismo
A cirurgia ajusta a posição e tensão dos músculos que controlam o movimento dos olhos, realinhando-os. É realizada sob anestesia geral, geralmente em regime ambulatorial, com recuperação rápida. O objetivo é restaurar o alinhamento ocular e possibilitar a visão binocular.
Aspectos importantes sobre a cirurgia:
- Não substitui o tratamento da ambliopia - a cirurgia alinha os olhos, mas não melhora a visão
- Em alguns casos, mais de uma cirurgia pode ser necessária para obter o alinhamento ideal
- A recuperação é geralmente rápida, com retorno às atividades normais em 1-2 semanas
- Exercícios pós-operatórios podem ser recomendados para desenvolver a visão binocular
Acompanhamento de Longo Prazo
Mesmo após o tratamento bem-sucedido, é essencial manter o acompanhamento oftalmológico regular durante toda a infância e adolescência. O estrabismo pode recidivar, e a ambliopia pode retornar se o tratamento for interrompido prematuramente.
Perguntas Frequentes
A primeira avaliação oftalmológica completa deve ser realizada aos 6 meses de idade, mesmo sem sinais aparentes de problemas. Se houver histórico familiar de estrabismo, ambliopia, erros refrativos altos ou outras doenças oculares, a avaliação pode ser indicada ainda mais cedo. O teste do reflexo vermelho (teste do olhinho) deve ser feito na maternidade logo após o nascimento.
Nos primeiros 3-4 meses de vida, pequenos desvios oculares intermitentes podem ser normais, pois o sistema de controle ocular ainda está se desenvolvendo. No entanto, desvios constantes, desvios que persistem após os 4 meses ou desvios muito evidentes devem ser avaliados por um oftalmologista pediátrico, independentemente da idade do bebê.
Depende da causa do problema. Erros refrativos como miopia, hipermetropia e astigmatismo geralmente são permanentes e exigem correção contínua. No entanto, algumas crianças com hipermetropia podem ter redução do grau com o crescimento. Em estrabismos acomodativos, os óculos podem ser necessários permanentemente para manter o alinhamento. Seu oftalmologista acompanhará a evolução e orientará sobre a necessidade de uso contínuo.
A cirurgia de estrabismo é considerada muito segura quando realizada por oftalmologista especializado em estrabismo. Complicações graves como perda de visão são extremamente raras (menos de 1 em 10.000 casos). Os riscos mais comuns são hipercorreção ou hipocorreção do desvio, que podem requerer nova cirurgia. Como qualquer procedimento cirúrgico, há risco anestésico, mas em crianças saudáveis esse risco é mínimo.
O tempo de tratamento varia muito de acordo com a idade da criança, a severidade da ambliopia e a aderência ao tratamento. Casos leves em crianças pequenas podem responder em 2-3 meses, enquanto casos mais severos ou em crianças maiores podem requerer 6-12 meses ou mais de tratamento. É fundamental manter o acompanhamento regular e seguir rigorosamente as orientações do oftalmologista.
Sim, especialmente em crianças mais novas. É comum haver recidiva da ambliopia se o tratamento for interrompido prematuramente. Por isso, mesmo após alcançar visão igual nos dois olhos, geralmente é recomendado um período de "manutenção" com oclusão reduzida, seguido de acompanhamento frequente. A decisão de interromper definitivamente o tratamento deve ser feita pelo oftalmologista com base na estabilidade da visão ao longo do tempo.
Tradicionalmente, acreditava-se que a ambliopia não poderia ser tratada após a infância. Pesquisas recentes mostram que alguma melhora pode ser possível em adultos jovens com terapias visuais intensivas, especialmente com auxílio de tecnologia computadorizada. No entanto, os resultados em adultos são muito mais limitados e lentos comparados ao tratamento na infância. Por isso, o tratamento precoce continua sendo fundamental.
Aviso Médico: Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um oftalmologista pediátrico. Cada criança é única e requer avaliação individualizada. Se você suspeita que seu filho possa ter estrabismo ou ambliopia, agende uma consulta com nossos especialistas em Oftalmologia Pediátrica na Verlux. O diagnóstico e tratamento precoces são essenciais para garantir o melhor desenvolvimento visual.